Tendência
 Descolado da crise
Setor de HPC passou ao largo da turbulência econômica mundial, cresceu mais do que o esperado e projeta cenário otimista para 2010 no país POR MARCELO DE VALÉCIO
Existem perto de 1.700 fabricantes de produtos de beleza no Brasil, dos quais 98% são micro e pequenas empresas. Apesar do número significativo de estabelecimentos, 70% do faturamento está concentrado nos 15 maiores produtores, que têm faturamento acima dos R$ 100 milhões. A indústria de HPC responde no País por uma força de trabalho de 3,4 milhões de pessoas. Nos últimos 14 anos, o crescimento atingiu 200% nas oportunidades de trabalho.Apenas em 2008, o crescimento médio foi de 8,2%, segundo a Abihpec.De acordo com a entidade, entre os fatores que ajudam a explicar o bom resultado do setor, principalmente nos últimos 12 meses, está o investimento em tecnologia de ponta, que ampliou a oferta e a consequente venda de produtos, estimulando a competitividade, e a manutenção dos investimentos mesmo com a crise, não interrompendo a programação de lançamentos.
A economia de escala gerada pelo acréscimo da demanda permitiu às empresas oferecer preços melhores para o consumidor. Nos últimos anos, os produtos de maior valor agregado e mais alto índice de tecnologia, como os protetores solares, ficaram mais baratos graças ao aumento do consumo. “Em alguns segmentos, houve um crescimento até maior com a crise”, afirma Roberto Nascimento de Oliveira, professor da ESPM-SP e diretor da consultoria Foco Gestão. “As pessoas passaram a investir mais na autoestima, a cuidar melhor do corpo e da saúde, incluindo novos itens na cesta de produtos. Isso fez com que o setor de HPC ganhasse fôlego.” Para completar, há, ainda, um componente cultural nessa história. Segundo João Carlos Basílio, o brasileiro valoriza a higiene e a boa aparência e vê os gastos com produtos de higiene pessoal, cosméticos e perfumaria como um investimento no sucesso social e profissional. De acordo com estudo realizado pela Latin Panel, os produtos de HPC vêm em segundo lugar entre os gastos da população com produtos não duráveis, com 16% de participação, perdendo apenas para alimentos, que ficam com 72% do orçamento.
Some-se a esses fatores a maior participação feminina no mercado de trabalho (no Brasil, as mulheres ocupam 45% dos postos de trabalho) e na condução dos lares (33% são chefiados por mulheres). Esse público torna o investimento na aparência uma estratégia de ascensão profissional. Pesquisa realizada pela Avon em 24 países indicou que a mulher brasileira é a mais vaidosa – 90% das entrevistadas consideram os produtos de beleza uma necessidade e não um artigo de luxo. A melhoria da renda da população e a diminuição do desemprego, ampliando a gama de clientes em potencial, são outros dois componentes que explicam os bons resultados do setor de HPC.
Nos últimos 10 anos, cerca de 10% da população economicamente ativa ingressou na classe média, que hoje responde por 51% do consumo no Brasil. Essa evolução na renda fez com que as famílias passassem a contar com mais recursos para investir em produtos de maior valor agregado em termos de tecnologia e inovação. “Nosso setor não depende de crédito como outros segmentos, depende de emprego e de renda. Qualquer aumento de R$ 10 que o trabalhador receba no salário já faz uma diferença importante para as vendas”, revela João Carlos Basílio. Sem contar que no mercado brasileiro os cosméticos representam quase 90% nas vendas diretas, segmento que também passou praticamente ao largo da crise.
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